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Elegias

9781465565792
pages
Library of Alexandria
Overview
a Fernando Maristany O incendio do sol-pôr exala um fumo rôxo Que ás cousas vela a face… A macerada flôr da solidão renasce; O seu perfume é fria e branda magua, Bruma que já foi agua… Todo sombra e luar esvoaça o môcho; Uma nuvem enorme, ao longe, no poente Desvenda o coração que se deslumbra E abraza intimamente… O silencio a crescer, é onda que se espalha… Sente-se vir o outomno; é já noitinha, orvalha… Nos êrmos pinheiraes gemem as noitibós E vultos de mulher, sumidos na penumbra, Passam cantando, além, com lagrimas na voz… Ó tristeza do mundo em tardes outomnaes! Longinqua dôr beijando-nos o rôsto… Crepusculo esfumado em intimo desgôsto, Bôca da noite acêsa em frios ais… Aparição soturna, vaga imagem Do mêdo e do misterio… Que solidão escura na paisagem! Tem phantasmas e cruzes, Tem ciprestes ao vento e moribundas luzes, Como se fosse um grande cemiterio. Olho em volta de mim, cheio de mêdo… Tudo É morta indiferença, espectro mudo! É o Verbo original arrefecido Em fragaredos brutos convertido; Extinto Fiat Lux, cadaver que fluctua No ceu nocturno e fundo… As almas que partiram d'este mundo Voltam na luz da lua. São phantasmas em neve amortalhados, Eternamente tristes e calados… São sonhos esvaidos, nevoa fria, Perfis de fumo e de melancolia… Vagas formas de imagem ilusoria Que a lua merencoria Molda em penumbra e cêra Na noite transparente de chimera